segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Acordes corrompidos: uma análise da influência que o cifrão provoca na arte


Desde a consolidação da música como uma das maiores fontes de venda da Indústria Cultural, compositores e intérpretes lançam a varejo e atacado seus álbuns no mercado do ramo diariamente pelo mundo afora. A grande maioria é formada por artistas profissionais que independente de suas abstrações criativas para com a arte, exercem naturalmente seus trabalhos na simples prestação de serviços em troca de remuneração. Nada mais justo. Mas como a música trata-se de uma indústria milionária, como está implícito no início do texto, a politicagem dos cartolas é que normatiza o que será sucesso ou o que está fadado ao fracasso.

Que o meio artístico, em específico o da música, é medíocre e corrupto, não chega a ser novidade. A corrupção está latente em qualquer ramo de atividade de nosso sistema capitalista neo-liberal. A letra de "If Money Talks", da banda Jason & The Scorches, fala um pouco disso. O fato é que isso influencia diretamente no produto acabado pronto para ser consumido. No caso a música. Há muito que surgem, no chamado “jabá”, grupos embalados, pasteurizados com conservantes para durarem com sucesso supervisionado no mainstream. Hoje já existe um outro sentido para “O Nascimento da Tragédia no Espírito da Múscia” descrito por Nietzsche em 1871.
 
Quantos artistas, do gosto pessoal do leitor, tornaram mais melódicas suas canções, mudaram seus estilos, apaziguaram suas temáticas ou redirecionaram seus trabalhos em busca de melhores vendas, aceitação no mercado ou fuga do empresariado pressionista? "Reign In Blood" de 1986, foi um disco tão pesado que o Slayer foi obrigado a “soar mais leve” no trabalho posterior. Se conferida a melodia vocal da música "Behind The Crooked Cross" do disco "South Of Heaven" de 1988 pode-se chegar a conclusão de que a mesma tem ritmo pra discoteda e academia de fitness. Não esqueçam de que todo músico profissional tem seu empresário promoter que tem como uma de suas funções a orientação (que quase sempre assume caráter de interferência) na música do artista para melhor veiculação.
Mesmo levando em consideração que a maior parte da renda desses artistas é proveniente de shows ao vivo, sabe-se que bandas maravilhosas encerraram suas atividades por briga de percentuais. Como disse o Pink Floyd: "money so they say. Is the root of all evil today". Outras retornaram, na onda do revival, como caça-níqueis deixando em segundo plano o teor artístico de suas músicas. No filme "The Great Rock ‘N’ Roll Swindle", os Sex Pistols assumem corajosamente que a banda foi um enlatado, produzido por Malcom McLaren, que deu certo. Trata-se de um isolado, mas significativo, caso de faixismo (visto que eles pregam o “lucro sujo”) perdoado pela sinceridade descompromissada. Várias são as produções que deixam a desejar por falta de investimentos que merecidamente refinariam mais o trabalho. Inúmeras são as informações errôneas divulgadas visando apenas o lucro. "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band" dos Beatles, foi o primeiro álbum conceitual da história da Indústria Fonográfica! Certo? Errado! Antes do clássico disco citado, "Freak Out!" do Frank Zappa & The Mothers Of Invention já havia sido lançado como um álbum conceitual. Porém, o próprio Zappa parodiaria os fab four e esse equívoco ignorado pela grande massa, no disco "We’re Only In It For The Money" em 1968. Artistas sérios são prejudicados pela pirataria que é fomentada pela própria Indústria Fonográfica que contrata o artista (isso daria uma excelente tese de doutorado em “economia corrupta”). A arte gráfica do disco "Steal This Album!" do System Of a Down, que inteligentemente não tem arte gráfica, ilustra muito bem esse sistema decadente. Até mesmo o polêmico Planet Hemp dizia “...é por isso que o Planet Hemp nunca vai se acabar!” e seu front man, Marcelo D2, vivia acusando de hipocrisia os jogadores de futebol que apareciam na TV em comerciais de cerveja. Não demorou muito para a banda acabar de uma maneira muito maquiavélica, os empresários, interessados na ruptura, simplesmente fomentaram a carreira solo dos principais integrantes, deixando-os sem tempo e sem motivação financeira para dedicaram-se exclusivamente à banda. Logo depois, o próprio Marcelo apareceria vendendo cerveja na televisão, em horário nobre, evidentemente na troca de uma gorda conta bancária. Então você vê seu grupo predileto num infinito ciclo vicioso até ele ser reformulado ou simplesmente desfeito pelo bel prazer de espectros engravatados movidos a Chivas e caviar.
Esse textículo faz uma pequena análise comportamental da influência do interesse capitalista em apenas um segmento de música, no caso, o rock. Imagine se aprofundassemos a análise para os vários outros estilos existentes, não só da música, mas da arte em geral. Certamente que iria ser necessário vários meses de austera pesquisa onde gráficos, depoimentos de especialistas, entrevistas com protagonistas e coadjuvantes, levantamentos estatísticas e dados financeiros ilustrariam a triste realidade de que mentiras, drogas, mentiras, prostituição, mentiras, mediocridade e um pouquinho de mentiras sempre estarão por trás dos souvenirs produzidos em série, das credenciais Very Important People, da última entrevista concedida e dos lançamentos do próximo mês que virão acompanhados do clichê “esse é o melhor trabalho que nós já fizemos em toda nossa carreira!”. Não que seja necessário filtrar seletivamente o que venha a ser consumido, até porque não sobraria quase nada, mas em observação analítica sobre determinada obra, é possível melhor compreensão psicológica do resultado final, tanto das composições, arranjos e letras quanto da arte gráfica e postura do grupo. Se explorado, o raciocínio pode tirar dúvidas esclarencendo pontos obscuros e oferecendo sentidos alternativos para quem deseja entender um pouco mais a arte e o artista do que simplesmente escutar a música.

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