segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Música Indiana


A cultura indiana não faz distinção entre passado, presente e futuro. Há apenas o aj ("hoje") e o kal (que significa tanto "ontem" como "amanhã"). Essa concepção do tempo transparece na prática musical: enquanto a tradição ocidental define o início e o fim de uma composição, a execução da música da Índia parece surgir e desaparecer como por acaso.

A música indiana se executa em concertos por pequenos conjuntos, além de ser uma forma popular de expressão religiosa e acompanhamento essencial em muitas festividades que incluem danças e narrativas tradicionais. Alguns virtuoses notáveis -- sobretudo Ravi Shankar, compositor e citarista -- tornaram-se mundialmente famosos.

Enquanto a música ocidental divide a oitava em 12 partes iguais, a indiana utiliza 22 intervalos, que se agrupam para formar os intervalos maiores que constituem as várias escalas e modos. Na teoria clássica (pré-cristã) existiam duas escalas principais de sete notas, concebidas como seqüências de intervalos ascendentes. Cada nota, tomada como a principal (tônica) da escala a que pertencia, dava origem a 14 modos ou murchanas, agrupados em sete pares. Em cada par, um dos modos era considerado como suddha-jati (modo puro) e divergia do outro apenas quanto à afinação da notapa, principal diferença entre as escalas básicas. Acrescentaram-se a isso 11 modos mistos (vikrta-jatis), derivados por combinação de dois ou mais modos puros.

Raga e tala. Não se pode precisar quando o sistema de jatis caiu em desuso. O termo raga -- que em sânscrito quer dizer "cor", "paixão" -- refere-se à experiência emocional provocada pela música e foi usado a partir do século VII. No século X, Matanga afirmou no Brhaddesi, importante texto sobre a música indiana antiga, que os ragas eram derivados dos jatis, mas há controvérsias quanto a isso.

Uma mesma escala pode servir de base a vinte ou trinta ragas. A cada um corresponde uma tessitura melódica, bem como uma nota que se destaca em particular, que contrasta com a tônica, além de ornamentos, breves fragmentos melódicos e padrões rítmicos que o tornam mais facilmente identificável. Assim, fica definido de forma característica um universo sonoro que serve de base à improvisação.

música é invariavelmente acompanhada de um som grave e contínuo que reafirma a tônica. Pela utilização de determinadas notas, pela ênfase que dá a algumas delas, pelo modo de passar de uma nota a outra e construir asmelodias, o intérprete cria uma atmosfera subjetiva (rasa) única, pertinente ao raga utilizado, que varia segundo a hora do dia ou da noite. Um raga do alvorecer, como por exemplo o tori, induziria a um estado de espírito inadequado a outras horas do dia. A execução de um raga dura meia hora ou mais. Pode ser inteiramente improvisada ou recorrer também à repetição de trechos já memorizados anteriormente.

ritmo e a métrica indianos baseiam-se no tala, ciclo de tempos musicais cujo número pode variar de 3 a 128 e que se repete no decorrer da música. Na organização interna de um tala, os tempos não se agrupam de forma simétrica e regular, como é comum no Ocidente. Mesmo quando as subunidades são numericamente idênticas, outras diferenças funcionais estão presentes. Por exemplo, o tala conhecido como tin-tala consiste de 16 tempos e pode se assemelhar superficialmente ao compasso quaternário, já que se divide em quatro grupos de quatro. Os grupos, no entanto, não são iguais: o primeiro é o mais forte e o terceiro o mais fraco. Não há nada equivalente na música ocidental, cuja unidade métrica -- o compasso -- não comporta tal quantidade de informações e deixa as variações sutis de dinâmica a cargo de indicações interpretativas feitas pelo compositor ou ainda a critério do executante. Em geral, o tala é explicitado na música por um tambor, mas o ciclo rítmico deve estar claro na mente do solista mesmo quando não é audível em sua forma completa. O raga e o tala são também a base estrutural da música paquistanesa.


História
música indiana formou-se ao longo de seis mil anos, por numerosos povos. Ao chegarem à Índia, procedentes da Ásia ocidental, os arianos introduziram ensinamentos e rituais que foram mais tarde reunidos nos quatro Vedas (veda, "conhecimento"), cada um com seu estilo próprio de recitação. No Rigveda, as palavras assumem grande importância, enquanto no Samaveda ("conhecimento dos cantos") são apenas veículo da voz. À tradição védica, uniram-se as canções dos povos dravídicos. A arte clássica consistia no gita (música vocal), vadya (música instrumental) e nrtya (dança interpretativa).

Durante os primeiros séculos da era cristã, a difusão do budismo levou a música indiana pelo Tibet, China, Coréia e Japão, onde algumas formas vivas ainda atestam essa influência, também presente no Sudeste Asiático, Indonésia, Myanmar e Tailândia. Após o período de predominância helênica e budista (c.250 a.C.-600 da era cristã), a música religiosa hindu ressurgiu, ao lado de novos instrumentos e textos teóricos. O Brhaddesi foi escrito no século X e o Sangitaratnakara, de Sarngadeva, considerado um marco na história da música indiana, surgiu no século XIII.

Durante o período de domínio islâmico, especialmente a partir do século XIV, a música indiana valorizou-se e sofreu forte influência da música árabe. Com o colapso do império mogol no século XIX e a consolidação do domínio britânico, embora amúsica continuasse a ser patrocinada pelas cortes, a antiga opulência desapareceu. Houve uma contínua evoluçãomusical do período islâmico até o presente, com mínima influência da música ocidental, manifesta apenas no uso deinstrumentos alheios à antiga tradição, apesar das diferenças entre os sistemas de afinação das duas culturas.

A partir de meados da década de 1950, a música indiana foi executada regularmente no Ocidente. Na década seguinte, especialmente com The Beatles e com o violinista americano Yehudi Menuhin, surgiram pela primeira vez elementos dessamúsica na produção ocidental.

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