sábado, 9 de abril de 2011

PIANISTAS - Liszt


A tranquilidade de Genebra permitiu a Liszt um grande desenvolvimento como compositor. Até então a sua obra se limitava a alguns estudos e transcrições. E’ de 1835 em diante que se inicia a serie de composições importantes. Antes disso, porém, as necessidades financeiras do casal e o aparecimento em Paris de Sigismond Thalberg (1) exigiam o seu rapido retorno á atividade de concertos, a menos de correr ele o perigo de assistir ao desaparecimento de sua enorme reputação de prodigio do piano. A’ sua chegada em Paris encontrou o rival já em viagem, mas deu um concerto de grande exito e escreveu criticas á musica de Thalberg.
Em fevereiro de 1837, Thalberg realizou um concerto triunfal em Paris. Logo depois Liszt, alugando a grande sala da Opera, fez o mesmo, e a 31 de março, os dois rivais se defrontaram em um concerto no “salon” da princesa Belgiojoso. A vitoria pertenceu a Liszt. Ao que parece, Thalberg, embora excelente executante, era superficial como interprete e principalmente mediocre compositor (2). Durante alguns meses, de maio a julho, Liszt e Marie d’Agouit residiram em Nohant, na casa de George Sand (3). As duas mulheres não se entenderam bem apesar de sua precedente amizade e finalmente Liszt e Marie decidiram-se a conhecer a Italia. George Sand tinha rompido com Musset e a tensão causada por estes ultimos acontecimentos contribuiria mais tarde para obscurecer a amizade entre Chopin e Liszt.
As margens do lago de Como, os dois amantes conheceram o periodo mais feliz de suas relações. Em Bellogio, Liszt completou varias obras importantes, até o nascimento de sua segunda filha, Cosima, no dia de Natal.
Depois de Bellagio, seguiu-se Milão, onde Liszt se encontrou novamente com seu velho conhecido Rossini. Este, silencioso havia varios anos, acabara de publicar uma serie de canções com o nome de “Soirées Musicales”, que Liszt apressou-se em transcrever para piano, Rossini, arbitro musical de Milão, muito colaborou para o exito do amigo nessa cidade, mas, não se deve esquecer que Liszt tinha uma facilidade inigualavel para conquistar todo e qualquer publico, mesmo o mia renitente. No caso, o gosto do publico de Milão era deploravel. Conta uma anedota pouco conhecida que, por ocasião de um dos concertos, uma urna de prata, doada ao pianista por um grupo de admiradores, foi colocada na entrada do teatro para ali serem colocados temas ou sugestões do publico sobre os quais Liszt improvisaria. Ao ser aberta a urna, encontraram-se como temas de improvisação: a catedral de Milão, a novo estrada de ferro, e a pergunta? “deve-se ou não permanecer solteiro?”. Referencia a esta ultima, encontra-se numa carta em que Liszt escreve: “Como a unica improvisação apropriada teria sido uma longa pausa, preferi lembrar ao publico as palavras de um sabio – seja qual fôr a conclusão a que se chegar, casar se ou permanecer solteiro lamentar-se-à mais tarde a decisão adotada”.
Impressionado por uma inundação desastrosa do Danubio, Liszt deu varios concertos em Viena a favor dos flagelados. Naquela cidade encontrou Clara Wieck, futura Clara Schumann, através da qual conheceu o “Carnaval” e as “Phantasiestucke”, que Liszt imediatamente incorporou ao seu repertorio. O resto do ano de 1838 passou-se em viagens e concertos pela Italia.
No inicio de 1839, Liszt e Marie d’Agoult chegaram a Roma onde permaneceram quatro meses. A cidade iria ocupar a partir desse momento um lugar de eleição na vida de Liszt. Nessa primeira visita o acontecimento de maior importancia parece ter sido a amizade que ligou o compositor a Ingres, então diretor da Academia francesa em Roma. Segundo o testemunho de Liszt, a alusão pejorativa sobre o “violon d’Ingres” não tem razão de ser, pois o pintor era bom violinista, excelente interprete de Beethoven.
Apesar do nascimento de um filho, Daniel, começaram a surgir rusgas entre o casal de amantes. Marie, impaciente e mal-humorada, não aceitava com amenidade as exigencias da carreira de “virtuose”. Finalmente voltou a Paris, com os filhos, em novembro. No mesmo mês, Liszt, encolerizado pelos parcos resultados obtidos pelo apelo feito na Europa para a construção de um monumento a Beethoven em Bonn (4), ofereceu os seus prestimos á comissão organizadora, garantindo a enorme soma necessaria, (5). Seis concertos em Viena, varios concertos em Pesth e outras cidades consagraram novamente o seu nome. E’ um tanto decepcionante examinar os programas publicos desses concertos. São só transcrições (“Sinfonia Pastoral”, de Beethoven, “Ave Maria”, de Schubert etc.) e peças pirotecnicas (“Études Transcendantes”, “Galop Chromatique” etc.). E’ verdade que nos salões e residencias amigas, Liszt revelou-se muito mais sensivel ás novas tendencias. Tocava tudo que Chopin e Schumann tinham escrito até e outras cidades consagraram então, além de Bach, Scarlatti, Beethoven, Hummel, e suas proprias obras mais interessantes. “Liszt foi o primeiro pianista a aparecer com o repertorio moderno, como este permaneceu no seculo passado; não só o primeiro, mas – indubitavelmente – o melhor” (6).
Os seguintes sete anos da vida de Liszt são de viagens e concertos constantes. Praga, Dresden o aplaudem. Encontra uma acolhida fria no seu primeiro concerto em Leipzig mas conquista o publico subsequentemente, ajudado por Mendelssohn e Schumann. Novamente em Paris, encontra-se pela primeira vez com Wagner, encontro breve e, por enquanto, sem consequencias. Novas “tournées” se sucedem. Na Inglaterra, é mal recebido pelo publico vitoriano, que não perdoara a sua ligação com mme. d’Agoult, mas em todos os outros paises é tido como um semideus. Em 1841 esteve em Bruxelas, Liege, Paris, Hamburgo, Kiel, Copenhagen, Cassel (onde conheceu Spohr), Weimar, Jena, Dresden, Leipzig etc.
No verão alugou uma ilha no Reno, onde passou alguns meses com Marie e seus filhos. Em 1842 visitou Berlim e a Russia, travando conhecimento com as maiores personalidades do momento. A enumeração de suas viagens e concertos, sempre triunfantes, torna-se até monotona. Alguns traços menos simpaticos do seu carater foram alimentados pela adulação constante que recebia. Assim deixa Berlim numa carruagem de seis cavalos brancos, acompanhado por uma procissão de trinta outras carruagens e uma escolta de estudantes uniformizados. Possuia nessa epoca trezentas e sessenta gravatas, uma para cada dia do ano. Arrogante, não hesitou em insultar todos aqueles que lhe eram antipaticos, desde Louis-Philippe, seu antigo protetor, até o onipotente Tzar Nicolau I.
Em 1844 consumava-se a separação de Liszt e Marie, cada vez mais distantes, ele, absorvido pela carreira, ela, amargurada pela incapacidade de compreendê-lo.
Dois acontecimentos destes sete anos vão determinar o resto da vida de Liszt. Em 1842 é nomeado regente e diretor musical da corte grã-ducal de Weimar. Aceita então emprestar os seus serviços durante três meses por ano á cidade, mas prossegue, como vimos, nas suas viagens. E em 1847, encontra-se em Kiev com a princesa Carolina de Sayn-Wittegenstem. Apaixonou-se, como sempre, rapidamente por ela. Mas esta “Liaison” seria mais duradoura e mais importante, pois, logo em seguida, Liszt abandona a carreira de concertista e, a partir do fim de 1847, não recebe mais um ceitil como regente, como compositor ou como professor. Iniciam-se os anos de maturidade.
(1) Como curiosidade deve ser mencionado que Thalberg (1812-1871), no decorrer de sua carreira, visitou duas vezes o Brasil, em 1855 e 1863.
(2) E’ caracteristica a opinião de Chopin: “Thalberg toca excelentemente mas não corresponde ao meu gosto. Toca os “forte” e os “piano” com o pedal mas não com as mãos, faz decimas com tanta facilidade quanto eu oitavas e usa abotoaduras de diamante”. Por outro lado deve-se cita que Thalberg tocava extraordinariamente as fugas de Bach e as exigia de seus alunos.
(3) Não se deve esquecer que foi Liszt quem apresentou Chopin a George Sand.
(4) O total das contribuições na França tinha sido a quantia irrisoria de 424 francos e 90 centimos.
(5) Liszt estipulou que a execução da estatua deveria ser confiada a um seu amigo, Lorenzo Bartolini, aluno de Canova, condição que foi aceita.
(6) Sacheverell Sitwell: “Liszt”.

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