sexta-feira, 22 de abril de 2011

Terceira idade e música: perspectivas para uma educação musical

O crescimento populacional da terceira idade é inegável. Para Debert (2004) as pesquisas
relativas a terceira idade não são tantas quanto  a preocupação que se tem com o crescimento da
velhice no Brasil. Neri (2004) ressalta que a população idosa é a de maior crescimento hoje no país.
Berquó (1996) expõe que ao final do século a população idosa chegará a 8.658.000 e que 1 em cada
20 brasileiros terá 65anos ou mais, e que em 2.020 este número  crescerá para 16.224.000. E assim,
1 em cada 13 pessoas pertencerá à população idosa.
A atividade musical para a terceira idade é muito voltada para a prática musicoterápica
como se observa em Zanini (2002); ou como auxílio à outras áreas artísticas, como se observa na
dança estudada por  Azambuja (2002). A educação musical tem-se preocupado com o ensino
regular e superior, suas perspectivas e enfoques, até mesmo com as políticas educacionais que
interferem de forma direta neste ensino, como se constata  em Del Ben (2005).
Após uma revisão bibliográfica sobre o tema, buscou-se perspectivas para a atuação do
educador musical no contexto da terceira idade. Mister se faz questionar se a terceira idade também
não pode ser envolvida nas investigações do ensino musical.

A continuidade da educação na terceira idade
Neri (2004) revela a preocupação da Gerontologia Educacional, não só como investimento
das potencialidades do idoso, mas também, como  essencial na promoção da qualidade de vida.
Questiona-se o período de delimitação do ensino para o indivíduo. Na terceira idade, quando muitos
fatores podem contribuir para a maior disponibilidade, para o estudo e novas experiências, a
possibilidade de inserção do ensino de música é promissora. Tal posicionamento remete à idéia de
uma educação musical atenta para as transformações da sensibilidade musical. Esta temática
vislumbra, não só a necessidade de inserção da música e das linguagens artísticas, em contextos
diversos, como também os efeitos que esta ação pode propiciar aos que são submetidos a tais
experiências. As iniciativas de formação de Universidades Abertas à Terceira Idade são
demonstrações de que o indivíduo não encerra na velhice seus anseios de esperança de vida em
busca de uma participação na sociedade, como explicita Cachioni e Neri (2004).

revela que mesmo as restrições sobre o corpo, devido à idade, não são empecilhos à realização de
atividades motoras. Goldstein (1995) argumenta que programas educacionais para a terceira idade
têm efeitos poderosos no combate ao estresse e contribuem para um envelhecimento bem sucedido.
A oportunidade de começar ou dar continuidade ao estudo na terceira idade não é
uma característica apenas eminentemente educacional, decorrente do aumento das
instituições com o fulcro de proporcionar o ensino à terceira idade; mas deve resultar
também, de uma consciência sociológica a respeito. Deps (2003) em pesquisa sobre
instituições que abrigam idosos, constatou que o ócio é motivo de descontentamento
em grande parcela de indivíduos. E mostrou ainda, que uma atividade pode conferir
ao indivíduo um significado existencial, produzindo responsabilidade, compromisso,
somados ao bem-estar, a ajuda mútua, propiciados pelo convívio social.
Cachioni e Neri (2004) refletem que através das iniciativas de educação para pessoas
idosas forma-se uma consciência de que o potencial humano não se extingue na velhice.

Os benefícios da música
O ensino musical para a terceira idade pode  trazer benefícios não só na melhoria da
qualidade de vida do grupo, como também pode promover aspectos de desenvolvimento criativo e
expressivo do ser. Tame (1997) ensina que há exemplos que fortalecem a crença de que a música
tem uma força que interfere em todo o mundo a nossa volta e que esta força pode ter um caráter
físico, visível e audível e até mesmo, místico.
Sobre a ação da música em benefício da memória Tourinho (2006) acrescenta que a música
pode favorecer a memória, evocando lembranças do passado.Quando se ativa a memória através da
música transmite-se o pensamento de que a senescência é um período propício à recordação. Assim,
o idoso reconstrói experiências do presente e passado.  Esta memória advém de um trabalho em que
o prazer da música suscita o inconsciente a trazer material ao consciente.
A este respeito exemplifica Bosi (1994) quando estudando memória e sociedade, o caso de
dona Risoleta, mostra seus pensamentos na entrevista:
Relembrar uma coisa dessas é triste: vinham quatro ou cinco moços, um tocava
violino, outro violão, outro cantava, e  tocavam bandolim, cavaquinho com aquela
voz bonita que entrava no  coração da gente e a gente ficava... quem disse que ficava
dormindo?!... Na festa de São Benedito tinha banda de música, na igreja sempre teve
coral:queremos Deus que é nosso rei/queremos Deus que é nosso pai. Isso era lindo,
no momento assim não me lembro de tudo, mas devagarzinho de vez em quando vou
lembrando e começo a cantar aí pra criançada, então eles fala: ta alegre hoje, hein,
velha?! ...Quando comecei a dançar no carnaval veio: o teu cabelo não nega, mulata,
que tu és mulata na cor/mas como a cor não pega, mulata, mulata eu quero teu
amor.Eu dançava, cantava, puxava o cordão, pintava o caneco. Passava mão numa
vassoura, fazia dança com a vassoura e todo mundo me acompanhava. Aonde eu
chegava não tinha tristeza, vinha alegria. (Bosi, 1994:374).
Diante das atividades de percepção, vivência e estudos musicais, pode - se verificar no
idoso limitações de ordem física ou psíquica.  Gainza (1988) salienta que alguma dificuldade
rítmica, provavelmente, decorrente de um desequilíbrio emocional, relacionado a uma patologia.
Neste caso, a disfunção musical mostra a existência de problemas desta ordem.
Sobre este assunto, Tourinho (2006) aconselha que a utilização de música com prazer,
como uma linguagem, contribui para uma maior compreensão do mundo e de nós mesmos. E atesta
que estudos comprovam que a atividade muscular, a respiração, a pressão sanguínea, a pulsação
cardíaca, o humor e o metabolismo são afetados pela música e pelos som. O corpo é um
instrumento, configurando-se também como uma  caixa de ressonância e a voz, caracterizando o
som de cada indivíduo.

O desenvolvimento cognitivo  propiciado pelas atividades musicais encontram respaldo no
pensamento piagetiano de que “o sujeito constrói seu conhecimento através do comportamento
criativo” como demonstra (Costa, 2006:369). Na terceira idade onde o indivíduo, pela experiência
de vida, já obteve contato com a música, o ensino desta linguagem pode acarretar um processo
criativo, a partir do que se tem construído. A este respeito observa (Figueiredo, 1996:35): “... uma
constante atividade do organismo em busca de um estado de ponderação entre a assimilação de uma
informação que está em conflito, com uma já existente e o ajustamento da nova informação ao qual
chamamos de acomodação.”
Conclui: “A regulação cognoscitiva   se constitui na regulação orgânica e sua característica
se define no alargamento incessante do meio cognoscitivo em velocidades maiores e indefinidas
que conduzem ... à criação, aos possíveis, à novidade.” (Figueiredo, 1996:44).
O ensino musical para o idoso pode ser veículo de fortalecimento das relações
interpessoais, onde a música é elemento sociabilizador e integrador, além de promover equilíbrio
emocional, como afirma Montello (2004).
Para Arañeda (1991) a experiência, com distintos grupos de idosos, demonstra que o
envelhecimento é parcialmente reversível, através de reabilitação de funções no nível motor,
psicossomático e em respostas emocionais e intelectuais. E mostra que os fatores mais importantes
na reabilitação são os da ordem afetiva, indo ao encontro de Piaget que fundamenta a inteligência
em estruturas afetivas e no processo de formação da identidade. O ancião experimenta grandes
perdas afetivas e sofre na sociedade a desvalorização e a perda da identidade e de motivação
existencial, e tudo isso traz reflexo para suas funções intelectuais.
Através de tais embasamentos, a educação  musical mostra um campo fértil de atuação
junto a diversos grupos sociais. As práticas teórico - metodológicas da música aplicadas à terceira
idade, podem resultar em aspectos positivos como: incentivo ao fazer musical, o fornecimento de
subsídios para as pesquisas nas áreas educacional e gerontológica e ainda, a melhora na qualidade
de vida do idoso. A prática de  exercícios explorados por educadores musicais como Dalcroze,
Rodrigues (2005), Orff, Sanuy (1969) pode resultar em um aproveitamento não só do conteúdo,
mas na vivência musical, com um trabalho que envolva corpo, movimento, respiração, fala e toda a
linguagem sensorial. O resultado da associação de tais elementos,  fornece subsídios para atividades
criativas, improvisatórias, voltadas para a experimentação. O ensino musical com este escopo,  pode
aliar ação e reflexão aos aspectos vivenciados.
Montello (2004:21) exemplifica: “... tomará consciência da dinâmica emocional que está
por trás da ansiedade e, alegremente, exteriorizará essa energia por intermédio de algum tipo de
improvisação musical(uma batucada, por exemplo).”
A educação musical pode transformar a realidade do idoso, de forma que ele se sinta
agente da sociedade e transformador da mesma. Segundo Mathias(1986) um grupo coral, através da
educação musical pode ser um agente transformador da sociedade, e assim, o grupo poderá inserir o
som de cada indivíduo num processo de educação musical libertadora.
O ensino para a terceira idade deve trazer  uma perspectiva diferenciada ao educador
musical, de forma que este realize um trabalho consciente das necessidades do grupo delimitado,
bem como das práticas musicais, para a consecução de seu fim. Uma metodologia musical como a
oficina de música é um exemplo prático que pode nortear este educador. Neste sentido, (Campos,
1988:105) defende “...um processo de ensino aberto, centrado no aluno; por um ensino que parta da
experiência e não da informação; por um ensino que é orientado e não dirigido autoritariamente.”
A prática educativa deve ter as premissas citadas por Morelembaum (1999), quando fala da
valorização da prática  sobre a teoria, buscando  um aprendizado musical que dê acesso a todos,
através de uma concepção de ensino de música, que privilegie o desenvolvimento humano no seu
todo e a sensibilização, e não somente, um trabalho que vise o domínio de um instrumento, mas a
realização de atividades criativas e auditivas, retirando a ênfase da escrita e leitura.

O educador deve se inserir no contexto do grupo. O cotidiano da terceira idade é
instrumento para elaboração das aulas. Dissociar a vida do ensino, é distanciar a educação de um
propósito coerente com as necessidades do mundo hodierno.
Assim expõe Werneck (1991) que o objeto de estudo do educador é o encadeamento de
experiências e vivências do educando. O homem toma consciência de si mesmo, refletindo sobre
sua história e realizando um intercâmbio de influências com o meio em que vive.
As perspectivas que se formam para o professor de música, que destine seu foco à terceira
idade, são positivas, diante dos subsídios fornecidos pelas especialidades como: psicologia,
gerontologia, música, educação e pelo contingente de alunos que se prefigura no presente e futuro
próximo.

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