terça-feira, 21 de junho de 2011

Redes Sociais de Música


 Os estudos sobre as relações de circulação e consumo midiático no contexto dos estilos de vida na sociedade contemporânea têm apontado os efeitos desse amplo universo de bens simbólicos e cultura material disponíveis atualmente. O processo de estetização da vida cotidiana, em curso desde pelo menos o século XVII e tornado mais visível pelos meios de comunicação de massa no século XX, continua a configurar padrões de identidade através de perfis de consumo, seja no contexto amplo dos lazeres e da produção massiva de objetos, vestuários e bens simbólicos, seja em âmbito mais específico dos grupos e subgrupos a eles interligados. No âmbito da cultura digital, uma faceta notadamente marcada desses fenômenos acontece através das práticas de construção de perfis online em redes de relacionamento.

Devido ao intenso crescimento e popularização dos sites de redes sociais, uma das tendências de apropriação foi a segmentação em nichos de “gosto” e estilos de vida, como redes de relacionamentos voltadas a animais domésticos (como o Orkupet), moda (MySpace Fashion), atuações profissionais (por exemplo, o Linkedin) e de música, entre outros. Atualmente, existe uma série de redes emergentes específicas para a música, como o Soundcloud, Grooveshark, MyStrands, o Pandora (que foi fechado para usuários fora dos Estados Unidos), Ilike, Spotify, Imeen (que apresentou um crescimento muito grande no último ano) e o Musicovery (que trabalha com as sensações dos gêneros musicais através das cores e do design).

No caso específico da formação de um “gosto musical”, complementar às possibilidades midiáticas massivas como o rádio, a televisão, os jornais, as revistas etc, os perfis online em redes de relacionamento têm se mostrado eficientes no sentido de constituição de um banco de dados de consumo, de memória musical, de organização social em torno da música, de crítica e classificação de gêneros, de constituição de reputação de conhecimento sobre o assunto, quando aliados aos sistemas de recomendações musicais, como no caso do Last.fm, por exemplo. Recentemente, após ser batido numericamente em acessos pelo Facebook, o MySpace anunciou que se dedicará exclusivamente aos perfis relacionados ao conteúdo musical. Já a Apple adiantou que em breve lançará um sistema de recomendação e catalogação musical integrado ao iTunes que deve concorrer diretamente com o Last.fm. O próprio YouTube pode ser compreendido como plataforma musical, à medida que é muitas vezes apropriado para escuta de música em streaming.

Embora as pesquisas sobre sites de redes sociais estejam em amplo crescimento, ainda há pouco material relacionado às especificidades da produção e distribuição de conteúdo musical, bem como às práticas e estratégias de divulgação utilizadas por produtores e fãs nesses ambientes. A maioria das investigações concentra-se na área de computação musical e de computação social. Ainda existem poucos trabalhos no âmbito das ciências sociais. Nesse sentido, indico a intersecção do online com o offline nessas práticas, em uma relação de continuidade entre diferentes suportes, linguagens e formas de compartilhamento e armazenamento que estão relacionadas ao ritual simbólico característico do “ser fã de música” desde suas primeiras manifestações, além de contribuírem para uma possível construção do branding musical tanto dos artistas quanto dos gêneros e subgêneros.

A mobilização de fãs de artistas de cunho pop, como Depeche Mode, Lady Gaga e Justin Bieber – de certa forma ainda atrelados aos modelos massivos da indústria fonográfica –, tanto como manifestações de artistas mais ligados a determinado nicho e independentes, como Amanda Palmer, Trent Reznor, por exemplo, são performatizadas através de novas práticas que ainda articulam a mediação do conteúdo musical nos âmbitos online e offline, como a classificação de gêneros e divulgação da marca/nome do artista através do uso das tags (marcadores ou palavras-chaves), as flashmobs (agregações instantâneas de pessoas com um determinado objetivo) sobre determinados artistas ou canções, o lipdub (produção de um vídeo dublado de alguma canção em uma intersecção das práticas de vídeo e dublagem) e a produção de mixtapes (uma prática de compilação de canções por gêneros, artistas, anos, ou aspectos mais subjetivos etc) originalmente gravada em fitas-cassete e, atualmente, produzidas e compartilhadas online em sites como o Mixtape.me.

Diversos estudos observam a emergência de práticas sociais e a constituição das principais características dos perfis nos sites de redes sociais voltadas à música, em uma construção simbólica dessas plataformas, delimitadas a partir das apropriações dos perfis nelas inseridos (como músicos, produtores, DJs ou fãs e participantes de alguma cena musical, por exemplo). A literatura sobre a temática enfatiza as negociações e a organização em torno da música como maneiras de composição da memória e das identidades das audiências a partir das relações ali travadas. Além disso, diversos aspectos, como a personalização, a fruição simbólica e a consciência da audiência segmentada, entre outros aspectos, fazem parte das características atribuídas e apropriadas pelos usuários aos sites de redes sociais voltados à música, conforme podemos observar no quadro abaixo:


Apropriações das plataformas de música
Personalização musical
Fruição dos bens simbólicos musicais
Compartilhamento de preferências
Circulação da música
Traçado simbólico de relacionamentos
Banco de dados de informações musicais
Memória social
Reputação e constituição da marca
Recomendação
Organização hierárquica em torno da música
Consciência de audiência segmentada
Fonte: Amaral, 2010

Tais pesquisas indicam uma preocupação com a variedade de tags coletadas a partir dos usuários para categorização dos estilos musicais, contribuindo para a análise dos usos e formas de colecionismo de música online. Assim, ocorrem hibridações intergêneros, que se perpetuam ora pelo uso contínuo das tags propostas pelos usuários – no caso do estudo sobre usuários brasileiros do Last.fm (Amaral e Aquino, 2009), por exemplo, as tags já existentes no sistema são utilizadas por 72% dos entrevistados –, ora pelas próprias relações sociais de “amizade” que se configuram no sistema a partir da constituição do gosto musical, conforme nos indicam Baym e Ledbetter (2008).

Essas práticas são dimensionadas pela organização das buscas e informação sobre estilos musicais, e as possibilidades de recomendação passam a ser fatores importantes nessa constituição, pois a partir desses dois elementos (tagging e recomendação), podemos medir/visualizar presença e permanência na plataforma, afetando, assim, a constituição da reputação e mesmo da autoridade (normalmente vinculada aos grupos/subculturas de cunho musical) no sistema.

Essas operações são negociadas de forma complexa entre os diversos atores sociais que participam da performance afirmativa de gosto (Liu, 2007) conotadas via perfil e que são parte do ato de fruição da música como bem simbólico, incluindo a própria confecção de uma espécie de “marca musical” disseminada não apenas nos aspectos sonoros (a recomendação das canções per se em seu formato MP3, por exemplo) mas em outras linguagens, como o texto (os escritos sobre a música, críticas, comentários, links e hipertextos, as letras das músicas), o visual (a fotografia de festas, shows, artistas ou capas de álbum e a própria vestimenta do avatar do perfil) e o audiovisual (os videoclipes, as paródias, os vídeos de trechos de shows etc).

As negociações simbólicas identitárias que ocorrem nesse entorno legitimam outras práticas que, de certa forma, podem constituir uma organização social da cultura dos fãs de música, num sentido que pode ser atribuído ao que Raymond Williams (1992, p.208) denominava como organização social em torno das práticas culturais: “Assim, a organização social da cultura, como um sistema de significações realizado, está embutido em uma série completa de atividades, relações e instituições, das quais apenas algumas são manifestamente ‘culturais’”. Tais práticas são amplificadas pela infraestrutura e pelo ambiente das plataformas, embora já ocorressem nas discussões offline, na crítica e na imprensa especializada e em outros fóruns de encontro, como festas, shows etc.

Outra questão importante diz respeito aos fãs-curadores do acervo de memória musical informativa. Esse grupo específico de fãs de música tende a utilizar a rede para resgatar suas escolhas musicais em termos de gêneros e artistas, preenchendo as lacunas de sua coleção e colaborando para a conservação de um legado a ser passado para outras gerações. Blogs de crítica musical ou de download voltados para gêneros relacionados a um período histórico, como rock clássico, ítalo-disco ou anos 80, se enquadrariam nesse tipo de apropriação curatorial, por exemplo.

No presente artigo, discutimos a conceitualização das plataformas de música online a partir de diferentes estudos sobre sites de redes sociais, observando a construção identitária dos perfis e as formas de consumo musical. Enfatizamos que essas características não devem ser tomadas como tentativa de sistematização rígida das plataformas, mas como uma observação preliminar dos modos de consumo musical no âmbito dos sites de relacionamento, no qual detectamos tanto práticas offline há muito constituídas – como no caso do ato da recomendação, feita pelo procedimento boca a boca e através das mídias massivas, mas que nesse caso apresenta o elemento do cálculo aperfeiçoado –, como novas formas de busca de informações musicais e de relacionamento entre fãs, artistas e a música.

Na cultura contemporânea, tais práticas têm o seu trabalho rapidamente tornado visível e ganham amplificação nas redes digitais e mais especificamente, na construção personalizada e performatizada de um “gosto musical” negociado simbolicamente com outros participantes. Além disso, através da participação em tais ações, podemos observar o fluxo entre o trabalho amador voltado ao entretenimento, à diversão e à conservação de um determinado legado musical, tanto quanto à cooptação dessas estratégias de produção coletiva para fins comerciais e atrelados a modelos corporativos. Essas plataformas e práticas de consumo e distribuição de conteúdo musical merecem ainda ser abordadas sob vários outros ângulos e problemáticas, sejam elas históricas, econômicas, estéticas, sensoriais, entre outras.

Adriana Amaral é professora e pesquisadora do programa de pós-graduação em ciências da comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Twitter: @adriamaral

Para saber mais:
Amaral, A, Aquino, M.C. (2009) “Eu recomendo... e etiqueto”. Práticas de folksonomia dos usuários no Last.fm. Em Revista Líbero, n. 24, Ano XII, pp.117-129, Dez de 2009. Disponível em: http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/libero/article/view/6779/6122 Acesso em 12/12/2009
Baym, N., Ledbetter, A. “Tunes that bind?: Predicting Friendship Strength in a Music-Based Social Network”. Em Anais da Aoir 9- Internet Research 9.0, Copenhagen, Denmark, October 2008. Disponível em http://www.onlinefandom.com/wp-content/uploads/2008/10/tunesthatbind.pdf Acesso em: 10/11/2008.
Liu, Hugo. “Social network profiles as taste performances”. Em Journal of Computer-Mediated Communication, vol. 13 (1), artigo 13, 2007. Disponível em http://jcmc.indiana.edu/vol13/issue1/liu.html. Acesso em 05/07/2008.
Williams, Raymond. Cultura. São Paulo: Paz & Terra, 2ª. Ed. 2008 1992.

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